Jeanne Marie @ 19:03

Qua, 20/01/10

"Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem para dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer. E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração bater desordeiramente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido, e esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade. Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer: aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um Deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim. Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizémos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito. Somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor. Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo a baixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda-fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo. Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer."

 

Margarida Rebelo Pinto

 

Enfim, Margarida Rebelo Pinto > All LOL, acerta sempre em cheio, descreve pelas palavras certas aquilo que eu não diria tão certeiramente.

Ora bem, andei aí uns dias ausente do computador, e tenho alguns comentários, ainda da altura que fui destaque, a responder.. bom, é só para dizer que eu não me esqueci xD e que ainda esta semana respondo a tudo o que é preciso :)




Segredos!!! @ 21:04

Qua, 20/01/10

 

Concordo... A MRP diz sempre aquilo que eu quero dizer mas com palavras muito melhor combinadas...:p

Beijinhs***

Mary Jane @ 15:34

Dom, 31/01/10

 

Não aprecio a pessoas em si... Adoro os livros e as crónicas.
Como tu próprio dizes: palavras sempre certeiras.


Maria @ 13:32

Dom, 07/02/10

 

que bonito, como já se sabe ela escreve mesmo bem :)

*beijinhos*


. Aurora @ 19:17

Sab, 13/02/10

 

Uau.

É tão difícil verbalizar o que se pensa de um texto de uma autora como a Margarida Rebelo Pinto. Concordo plenamente contigo, ela "acerta sempre em cheio".

As palavras dela soam a poesia que não foi correctamente formatada e que, por isso, parece um texto em prosa. E, sendo uma prosa, será uma prosa integralmente poética.

A reflexão dela é genial, tal como a tua, em "descreve pelas palavras certas aquilo que eu não diria tão certeiramente."

E, de facto, quem fica, vê, pensa, medita e lembra. E, a cada recordação, a dor há-de emergir.

Até que, um dia, havemos de ir embora e deixar de ser aquele que morre a cada lembrança, para passar a ser o que partiu, e deixou tudo o que já não lhe fazia bem para trás.

Continuação de boas leituras & de boas escritas ^-^
e Parabéns um pouco atrasados por teres sido destaque!


Aurora

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